November 28, 2006

A obsessão por um corpo perfeito.
(depoimento real)

Ano de 2000. Final de férias, família na praia, muita comida, peixe frito com limão, brincadeira na piscina, castelinho de areia, quilos de sorvete pra enganar o calor, refrigerante, dormir tarde. Férias típicas, comportamentos absolutamente normais. Em casa, quis checar minha altura e meu peso. Não muito satisfeita com meus 1,50m e 38kg, quis perder pelo menos dois. O arroz foi o primeiro alimento que eu cortei imediatamente da minha alimentação.
Uma dieta é corriqueira na vida de qualquer garota, tirando o fato de que eu tinha apenas 11 anos de idade na época. E o começo dessa dieta, foi também o começo de uma obsessão por um corpo esquelético, o início de uma doença que eu mal sabia da existência.
Aos poucos, fui cortando doces, frituras, carboidratos. Tudo o que pudesse me 'estragar'. Um biscoito a mais poderia me fazer engordar tudo de novo. Não buscava o equilíbrio do meu peso, buscava sempre menos. E menos, para mim, passou a ser ideal. Adorava poder sair de casa na hora das refeições, porque me livrara de um fardo. Ninguém desconfiava porém, que todo o meu esforço em perder peso era sinal de doença.
Minha mãe fez com que eu visitasse uma psicóloga, que me recomendou o uso de antidepressivos. Chorei muito quando soube a finalidade do remédio, me senti desesperada em saber que me tornaria dependente daquilo. Além disso, era outra coisa que me preocupava. De madrugada, li e reli a bula procurando saber se continha alguma caloria. Só o aceitei porque não tinha nenhum valor energético e, na verdade, sozinho, não surtia efeito algum.
Meus ossos já despontavam em toda roupa que eu usava, minhas roupas antigas ficavam frouxas, sentia muito frio, uma pelagem começou a nascer no meu corpo e a pouca energia que eu tinha, o ballet consumia. A minha responsabilidade era ainda maior porque eu estava na fila da frente na apresentação. Apesar da preocupação das professoras e da própria diretora da academia, não me sentia suficientemente magra, não estava nunca satisfeita. Comida havia se tornado sinônimo de algo nojento, que eu desprezava e não suportava sequer sentir o cheiro.
Nas férias de julho, dois dias antes de ir pro Rio, recebi a visita de um amigo da minha mãe que era psicólogo também. Ele conversou um pouco comigo, mas o que mais me lembro era da sua última fala: "Você vai morrer." O mais incrível é que não me abalou nem um pouco sequer. Preferia morrer a engordar ou ganhar algum grama novamente. Falei pra minha mãe que a partir dali comeria apenas frutas. Foi o que eu fiz.
No Rio de Janeiro, passei a me alimentar de uma maçã por dia no horário do almoço, em um ritual estranho, no qual a maçã era cortada em pedaços milimétricos e mastigada milhares e milhares de vezes. O resto do dia eu não comia absolutamente nada. Raramente bebia um copo d`água e me culpava severamente quando meu estômago me alertava de fome. Era a pior sensação do mundo. Sentir fome, pra mim, era comportamento de gordo.
Cheguei em casa com um aspecto mais cadavérico do que eu havia partido. No mesmo dia a noite, minha mãe me levou para o pronto socorro e fui internada, com 24kg. Passei a noite inteira no hospital, fingindo que dormia para escutar a conversa dos médicos com meus pais. "Se a senhora não trouxesse sua filha essa noite para o hospital, provavelmente ela não acordaria".
No outro dia de manhã, foi colocada uma sonda no meu corpo, que entrava pelo nariz e ia até o estômago, e me alimentaria, pois essa tarefa já não me cabia mais. Enquanto os médicos se esforçavam para me fazer cooperar com a implantação da sonda, ouvia o choro do meu pai no quarto. Por essa sonda, recebia um suplemento super calórico várias vezes ao dia e com ela, sobrevivi cerca de 15 dias sem sentir gosto algum de comida de verdade. Tive vários ataques de choro durante a minha estada, queria muito voltar pra casa; prometia para o meu pai que comeria o macarrão dos domingos, a lasanha, prometi tudo, apesar de saber que eu não cumpriria nunca. O consolo que eu recebia era o colo dele, as lágrimas dele se misturando às minhas e suas palavras.. "Filha, o que são alguns meses no hospital, diante dos anos que você ainda tem pra viver?"
Meus dias se resumiam a algumas horas no sol pela manhã, muitas visitas de amigos, familiares, cartinhas, algumas palavras cruzadas, ler, ver TV. Foi um período em que recebi apoio máximo de meus amigos e meus parentes. Não havia um dia em que o quarto não lotasse de visita de rostos queridos. Tinha um desejo enorme de poder sair, viver, respirar, ser NORMAL. Inúmeras vezes me peguei pensando em como arrancar aquela sonda de mim, como pular pela janela, como fugir dali.
A nutricionista me disse que eu só sairia se passasse a comer, pelo menos um pouco. Passei a comer vegetais crus, e não cederia mais. Passei o meu aniversário de 12 anos num quarto de hospital, ainda magra e fraca. Depois de pouco mais de um mês, pude voltar pra casa. O tratamento seria mantido lá, com a sonda e a alimentação por suplementos. Tentei fugir, várias vezes. Jogava comida fora, escondia, fazia qualquer coisa pra me livrar daquilo entrar no meu corpo.
A sonda teve de ser retirada por complicações no meu estômago. A produção de bile estava descontrolada e eu me sentia muito mal. O trato foi de que eu me alimentaria com os suplementos oralmente. Me alimentei com suplementos durante 6 anos. Enfrentei uma batalha de médicos, odiei várias psicólogas que tentavam me curar, chorei descontroladamente ínúmeras vezes na hora da refeição. Meu pai tinha de me dar comida na boca para que eu a aceitasse e me acalmasse um pouco.
Meu cabelo, que antes era liso e pesado, caiu quase que completamente. Ficou fraco, sem brilho e ralo. Mesmo assim, a minha obsessão não estava de todo curada. E não sei se posso afirmar com toda a convicção de que estou completamente livre da anorexia. Ainda hoje, tenho restrição à várias comidas. Minha alimentação é limitada, tenho pavor de engordar.
Não há uma explicação concreto do porquê de se entrar em toda essa loucura. São fatores psicológicos, culturais, do próprio ambiente em que se vive. Mas de uma coisa eu tenho certeza. Amadureci muito nesse pouco tempo, encarei problemas de "gente grande" com apenas 12 anos de idade. E não me arrependo de absolutamente NADA. Tudo isso me fez ser o que eu sou hoje, formou o meu caráter, me fez ver que eu tenho amigos de verdade e uma família maravilhosa.
Hoje, tenho 1,63m de altura, 12cm a menos do que eu teria com a herança dos meus pais, segundo uma endocrinologista. Tenho 49kg e me sinto super bem com o meu corpo. Sou feliz, tenho amigas perfeitas, levo uma vida completamente normal. Não desejo a ninguém que passe pelo que eu passei. Emagreça, se quiser e se for realmente necessário. Mas emagreça com saúde e com consciência. Anorexia pode ser uma viagem da qual nem todos voltam.

E sim, sou eu mesma, a dona desse blog, a atriz principal de toda essa doidera!
Um beijo, muita saúde pra vcs! :*