
Saudades!
Veja bem, Anita, esse não é um jeito bem usual de começar uma carta. Mas sabe, precisava colocar isso pra fora, dividir isso com você também! Como é estar nessa cidade tão gigante, com prédios tão imponentes? Como é, querida amiga, conseguir alcançar todos os seus sonhos? Você é feliz? Você se sente completa? Porque eu não me sinto.
Desde janeiro daquele ano, parece que todas as peças do castelo que eu custei a construir vão caindo aos pouquinhos, como se insistissem em me ver desmoronar um pouquinho com elas. E com toda a sinceridade e coragem que eu juntei durante esses anos pra te escrever, eu te digo que dói bastante. Já não consigo lembrar do seu rosto, Anita, sem olhar nossas antigas fotos. Me perdoe, mas o tempo e o espaço entre nós agora é tão grande! E olhando essas fotos, a nostalgia vem bater à minha porta.
Foram muitas tardes no balanço, na sacada observando o movimento da ruela, muitos segredos mantidos a sete chaves, abraços e machucados, cartas longas e cheias de promessas vagas. Nunca imaginei que elas pudessem não se tornar realidade e vejo hoje o quanto o presente é precioso. Juro, Anita, que se eu soubesse que seria tão difícil sem você, nunca teria concordado com sua felicidade longe dessa cidade e dessa amiga que você há muito já deve ter esquecido.
Parece que me falta um pedacinho. E eu não posso ser meio completa. Eu preciso ser inteira, Anita. Eu preciso voltar o tempo, voltar minha integridade, voltar você. Volte, Anita. Volte.
Faça nossas promessas serem reais.
Nada tira tanto o gosto deste copo de whisky como sua ausência.

